Brazilian rootsEm português
Ser mãe longe da própria mãe
Existe uma saudade que só aparece depois do parto. Este texto é para a mãe brasileira que está vivendo o puerpério longe da própria mãe, e para quem ama essa mãe.
Escrito por Bruna Gomes, CPD4 min de leitura
Atualizado em setembro de 2026
Existe uma saudade que ninguém avisa que vem.
Ela não aparece na mudança, nem no primeiro inverno, nem no primeiro Natal longe de casa. Ela aparece depois do parto, quando você está com o bebê no colo, a casa em silêncio, e percebe que queria, mais do que tudo, a sua mãe ali na cozinha.
Se é isso que você está sentindo, este texto é para você.
A rede que ficou lá
No Brasil, o pós-parto quase nunca é vivido a dois. Tem a mãe, a sogra, a irmã, a tia, a vizinha que aparece com um prato de comida. Tem o resguardo, aqueles quarenta dias em que a mulher que acabou de parir não precisa dar conta de nada, porque tem gente dando conta por ela.
Aqui, muitas vezes, essa rede vira uma tela de celular.
A sua mãe está a uma videochamada de distância e, ao mesmo tempo, a um avião, um visto e muitas horas de viagem. Às vezes ela consegue vir por algumas semanas, e quando vai embora a casa parece grande demais. Às vezes ela não consegue vir.
Isso tem nome, e o nome é luto. Luto pela rede que você não tem aqui, pelo cuidado que você viu as mulheres da sua família receberem e que agora não chega até você.
Não é exagero, não é ingratidão com a vida que você construiu nos Estados Unidos. É uma perda de verdade, e ela merece ser reconhecida.
E se a sua mãe não pode estar, ou já não está, ou se a relação de vocês é complicada, essa falta também é real. Às vezes a saudade é da mãe que a gente gostaria de ter tido.
O que pesa a mais quando se está longe
Além da saudade, existem pesos bem práticos, que quem está em volta nem sempre enxerga.
O idioma, no pior momento. Mesmo quem fala inglês bem no trabalho pode se perder numa consulta com o pediatra, cansada, sem dormir, tentando entender uma orientação sobre remédio ou sobre alimentação do bebê. Você pode pedir um intérprete de português no hospital e nas consultas.
Pedir não é incomodar ninguém. É cuidar de você e do bebê.
Dois jeitos de cuidar ao mesmo tempo. A sua mãe fala em agasalhar muito o bebê, em não lavar o cabelo, na canjica para ter leite. O pediatra daqui diz outra coisa, e você fica no meio, com culpa dos dois lados.
O carinho por trás de cada conselho é verdadeiro. Mas o que envolve a saúde do seu corpo e do bebê merece ser conversado com a sua obstetra, o seu médico ou o pediatra.
Você não precisa escolher entre a sua mãe e o médico. Dá para guardar o amor e conferir a regra.
Ninguém para passar o bastão. Não tem quem segure o bebê enquanto você toma banho com calma, quem faça a comida, quem diga "vai deitar, que eu fico com ele".
Parece pouco, e não é. Era exatamente isso que o resguardo garantia.
O que dá para montar aqui
A rede que ficou no Brasil não se substitui. Mas dá para costurar uma rede nova, com o que existe por perto.
Deixe as pessoas ajudarem de verdade. A amiga da igreja, a vizinha, a colega de trabalho, outras mães brasileiras da região. A comunidade brasileira em Massachusetts é grande, e muita gente ali já viveu exatamente o que você está vivendo.
Quando alguém perguntar "precisa de alguma coisa?", tente responder com uma coisa concreta: uma refeição, uma ida ao mercado, uma hora com o bebê.
Deixe a sua mãe cuidar de longe. Peça que ela conte como foi o puerpério dela. Peça a receita da canja.
Deixe a chamada aberta enquanto você alimenta o bebê, sem precisar conversar, só para ter a presença dela no quarto. Cuidado também viaja pela tela.
Se você ainda está grávida, planeje a rede antes. Quem vem, quando e por quanto tempo. Quem cozinha nas primeiras semanas. Quem vai com você às consultas.
Planejar não é pessimismo, é carinho com a mulher que você vai ser daqui a alguns meses.
E existe o apoio profissional, que não substitui ninguém. Como doula pós-parto em Massachusetts, com raiz brasileira, eu sei o que é viver entre duas culturas. Trago a leveza do Brasil junto com os limites e o acolhimento que aprendi aqui, e acredito que um não precisa apagar o outro.
Não sou a sua mãe, e ninguém vai ser. Mas é possível ter alguém em casa cuja atenção está em você.
A mãe que cuida de outras mães
Penso muito na minha mãe quando escrevo sobre isso. Ela atravessou o próprio pós-parto sem nenhuma rede de apoio e, mesmo assim, cuidava de outras mulheres no puerpério.
Talvez venha daí a minha certeza de que nenhuma mulher deveria passar por essa fase sozinha. E talvez venha daí também um desejo que eu tenho para você: que você não precise ser forte o tempo todo só porque está longe.
Se você está lendo isso de madrugada, com o bebê dormindo em cima de você e o celular no brilho mínimo, saiba que sentir falta da sua mãe agora não é fraqueza. É amor procurando o caminho de casa.
E você também merece ser cuidada.
